Localização:
Os Trumai estão localizados na região central do Parque Indigena do Xingu, no estado do Mato Grosso. Suas aldeias são: Terra Preta, Boa Esperança, Steinen e Terra Nova. Além de habitarem estes locais, algumas famílias Trumai também vivem em cidades como a de Feliz Natal e Canarana.
Dados Históricos da Comunidade:
A história do povo Trumai revela um percurso de migração e adaptação constante. As fontes documentais indicam que o grupo, originário de uma área entre os rios Araguaia e Xingu, foi forçado a se deslocar devido a ataques de outros povos, possivelmente os Xavante. Estima-se que eles chegaram ao Alto Xingu na primeira metade do século XIX, navegando por um afluente do rio Kuluene (Villas Bôas, 1970).
Ao longo do tempo, os Trumai mudaram suas aldeias de lugar inúmeras vezes, explorando diferentes áreas e enfrentando conflitos com grupos vizinhos, como os Juruna (Yudjá) e os Suyá (Quain & Murphy, 1955). Apesar de incorporarem diversos aspectos culturais dos alto-xinguanos, eles mantiveram sua identidade distinta. Na convivência, os Trumai se integraram à rede de trocas local, fornecendo pedras para a confecção de machados.
Até a década de 1950, os Trumai se moviam em seu território tradicional no baixo rio Kuluene ou buscavam refúgio em aldeias de grupos aliados, como os Aweti (Ehrenreich, 1929) e os Nahukuá (Vasconcellos, 1945). No entanto, epidemias de sarampo e gripe os forçaram a se aproximar do Posto Indígena Diauarum em busca de assistência médica, o que se tornou crucial para a sobrevivência do grupo, já bastante reduzido na época.
A partir de 1968, os Trumai ergueram uma nova aldeia perto do Posto Leonardo Villas Bôas. Após um período de recuperação demográfica e social, o grupo se mudou para a aldeia de Malakafia, também chamada de Pato Magro, e posteriormente para Terra Preta, ambas na margem esquerda do rio Xingu. Mais tarde, outras aldeias surgiram, como a Boa Esperança na área de Awara'i, e a Steinen, às margens do rio de mesmo nome, no final dos anos 80.
Apesar de parte de seu território original ter sido ocupada ou transformada (como a área do Jacaré, onde uma antiga aldeia Trumai deu lugar a uma base aérea militar), os Trumai continuam a percorrer e explorar a região entre o Posto Leonardo e o Posto Diauarum, visitando periodicamente suas roças e sítios antigos.
Antes de se integrarem aos povos do Alto Xingu, os Trumai tinham costumes próprios. Os homens amarravam o pênis com embira e tinham cabelos compridos, enquanto as mulheres usavam a faixa tsapakuru na cintura. Suas armas incluíam a borduna (nai) e o propulsor de flechas (hopep), e dormiam em esteiras (weset).
Com a convivência, eles adotaram hábitos alto-xinguanos, como o uso de arcos e flechas, e passaram a dormir em redes. As mulheres substituíram a faixa pelo uluri, e os homens passaram a cortar o cabelo e adornar o corpo de forma similar aos outros grupos. Além de assimilarem festividades e mitologias, os Trumai também introduziram suas próprias tradições, como as festas de Jawari e Tawarawanã, no Xingu.
Contudo, certas tradições Trumai se mantiveram únicas. Eles não realizam a cerimônia do Kwarup e consomem alimentos, como capivara, que são proibidos para os alto-xinguanos. Essa diferença alimentar é vista por outros povos como um sinal da distinta identidade Trumai. A grande presença de nomes de animais de caça nos cantos de Jawari — como macacos e felinos — sugere que os Trumai tinham uma sociedade mais voltada para a caça do que para a pesca, um contraste com o Kwarup alto-xinguano, que enfatiza os seres das águas (Monod-Becquelin & Guirardello, 2001).
A especialização comercial dos Trumai, baseada na produção de sal (yakïr) a partir de plantas aquáticas e na fabricação de machados de pedra (daka), perdeu sua importância com a chegada de ferramentas de metal. Atualmente, a produção de sal serve apenas para consumo próprio, e a fabricação de machados de pedra foi totalmente abandonada.
Bibliografia Consultada:
Ehrenreich, P. (1929). Über die Botokuden der Ostküste Brasiliens. Ethnologisches Notizblatt, 253.
Monod-Becquelin, A., & Guirardello, R. (2001). Nomes de animais nos cantos de Jawari: um estudo da taxonomia zoológica Trumai. Revista de Antropologia, 44(2), 415-424.
Quain, B., & Murphy, R. F. (1955). The Trumai Indians of the Upper Xingu River, Brazil. Acta Americana, 11.
Vasconcellos, A. (1945). Os índios Nahukuá. Boletim do Museu Nacional, 77.
Villas Bôas, O., & Villas Bôas, C. (1970). A marcha para o Oeste. Editora Civilização Brasileira, 27.