I - Trançado - KJ

Descrição do Material/Técnica: 
A manufatura é um elemento de suma importância no sistema complexo da comunidade Karajá, uma vez que representa a cultura desse povo e perpassa pela confecção de colares, brincos, esteiras, remos, arcos, flechas, entre outros artefatos.
O artesanato na comunidade é desenvolvido para dois fins: o primeiro, de caráter cultural, associado às práticas tradicionais e aos cultos ritualísticos; o segundo, direcionado ao comércio e às práticas sociais. Além disso, a produção de objetos com finalidade comercial surge como uma oportunidade de aproximação com a sociedade civil. 
Embora o papel da confecção de trançados seja tradicionalmente associado às mulheres, na comunidade Karajá essa dinâmica se diferencia, visto que apresenta uma divisão de tarefas. De modo geral, mulheres e homens participam da construção dos objetos, diferenciando-se na produção conforme suas responsabilidades sociais e culturais dentro da comunidade. É a partir da elaboração desses artefatos que o conhecimento de sua cosmovisão é transmitido de forma intergeracional, por meio da prática cotidiana.
Em específico, no âmbito da comunidade, o homem é responsável pela fabricação de artesanatos relacionados à caça, como arcos, flechas, lanças, entre outros artefatos. Também se destaca na produção de instrumentos voltados à pesca, como redes, armadilhas e lanças específicas para essa atividade. Por fim, evidencia-se sua atuação na confecção de artefatos associados à mobilidade, como remos, máscaras de dança e outros instrumentos utilizados no deslocamento pelos rios. Em paralelo, as mulheres ficam responsáveis pela fabricação de artesanatos voltados ao cotidiano doméstico, como a produção de esteiras de palha de buriti, a tecelagem de ornamentos feitos de algodão, utilizados nos punhos, abaixo dos joelhos e nos tornozelos, além da confecção de cestos, peneiras e adornos corporais, como colares e brincos.
Segundo Costa (1978), as atribuições dentro da comunidade relacionadas a confecção dos artefatos são iniciadas ainda na infância, com diferenças de acordo com o gênero.  Conforme a autora, os meninos iniciam-se na atividade de confecção entre 8 a 12 anos, enquanto as meninas iniciam por volta entre 12 a 17. Após o casamento, essas competências tendem a se intensificar, especialmente para as mulheres, devido a maior necessidade de confeccionar os trançados e artefatos para fins domésticos e para destinar ao marido e aos filhos.
 
Bibliografia Consultada: 
BALDUS, Herbert. Ensaios de etnologia brasileira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937. (Biblioteca Pedagógica Brasileira, vol. 101)
KARAJÁ, Tuinaki Koixaru; MENDONÇA, Luciana de Castro; DUARTE CÂNDIDO, Manuelina Maria. O papel das mulheres Iny Karajá na preservação da identidade do grupo: os casos das ritxoko e do hetohoky. In: SOARES, Inês Virgínia; PIOVESAN, Flávia; RABELO, Cecilia Nunes; BARBOUR, Vivian (coord.). Mulheres, direito e protagonismo cultural. Coimbra: Almedina, 2022
COSTA, Maria Heloisa Fénelon. A arte e o artista na sociedade Karajá. 1968. Tese (Livre-docência em História da Arte) — Escola de Belas Artes, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1968.
 
Dados da Sociedade: